segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O OLHO DA RUA (1907/1911)

"Aqui é o meu ponto favorito, é como se estivesse na platéia de um grande teatro, atento para o palco onde se desenrolam, trágicas e terríveis, as cenas palpitantes de um drama real. A rua é um tablado e quem ficar parado aqui, acantoado ao desvão de um palacete, há de assistir lances multiformes, imprevistos, terrificantes, bufos, a de apanhar no ar trechos de inefáveis diálogos de amor, imprecações brutais de carrejões, lamúrias de mendigos, risadas e blasfêmias, há de auscultar enfim esse organismo que estua, vibra e é alegre e triste, faustoso e iniserável, cheio de sol e cheio de lama”.

Extraído da crônica Na esquina – assinado por Helio
O Olho da Rua - fascículo 1 – p.05 – Curitiba - 1907

A partir de 1900 a cidade de Curitiba revelou uma efervecente cena musical. As edições de partituras ocorridas em periódicos movimentava os hábitos culturais. Alguns destes jornais e revistas foram fundamentais para a formação de opiniões, gostos e costumes em Curitiba, que vivia a sua crescente urbanização. No decorrer das últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, centenas foram publicados, alguns deles são: Dezenove de Dezembro, O Diabo Azul, A Arte, O Trovão, O Santelmo, Club Curitibano, A República, O Cenáculo, Almanach do Paraná, O Sapo, Ramos de Acácia, O Olho da Rua, A Bomba, Gazeta do Povo e o Correio do Paraná.

Fundado pelos sócios Seraphim França, Heitor Valente e Mário de Barros, O Olho da Rua foi um importante veículo de conteúdos musicais publicado em 1907, 1908, 1909 e 1911. Esse periódico com impressão quinzenal possuía a característica de fomentar severas críticas a política, incluindo o clero e os militares, e suas particularidades mais notáveis foram a ironia e a exaltação às artes. A pesquisadora Marilda Lopes Queluz realizou um amplo estudo sobre a eficiência da comunicação exercida nos leitores através das caricaturas contidas em O Olho da Rua. Sua análise buscou observar traços de uma linguagem específica para a época, percebendo os códigos internos que desvelam interesses estéticos principalmente pelos traços sinuosos, marcos entre outros do Art Nouveau.

O Olho da Rua foi um fundamental veículo para a divulgação de peças musicais dos significativos compositores que configuravam a cena curitibana naquele período. Para citar alguns, estão entre eles os maestros: Benedito Nicolau dos Santos - considerado o maior musicólogo das américas pelo musicólogo alemão Curt Lange, Eugênio do Rosário - autor de uma série de tratados de harmonia e contrapontos, além de dicionários musicais temáticos e organológicos, Luiz Bastos - o seu quinteto foi um dos mais recorrentes durante as exibições do cinema mudo em Curitiba na década de 1910 e Carlos Franck - importante maestro que participava com sua orquestra das principais ocasiões religiosas em Curitiba e no litoral paranaense.

Foram dezoito fascículos de O Olho da Rua publicados no ano de 1907, sendo que destes, quinze possuem partitura publicada. Vinte e cinco fascículos publicados no ano de 1908, sendo que oito possuem partitura. Vinte fascículos publicados em 1909, sendo que sete deles possuem partitura, e finalmente, onze fascículos publicados semanalmente em 1911, sendo que três deles possuem partitura. No total foram publicadas 33 partituras compostas por 14 compositores e 2 poetas. Algumas das composições possuem letra, entre elas, o hino A Estrella D’alva - autoria de Augusto Stresser e Silveira Netto - e a Canção de Outr’ora composta por Amélia Carvalho com poesia de Rodrigo Júnior.

A frase de abertura deste artigo foi publicada no fascículo número 1. Trata-se de um trecho da crônica Na Esquina assinado por Helio pseudônimo utilizado por Euclides Bandeira (1876-1947), um livre pensador que juntamente a seus colegas produziu o teatro de revista Colcha de Retalhos, que foi uma entre tantas outras revistas teatrais de costumes curitibanos produzidas e estreadas em Curitiba durante os primeiros anos do século XX. Todas elas a espera de pesquisas musicológicas que possam revelar seus conteúdos e características.

Durante todo o século XIX e a primeira metade do século XX era comum que as partituras fossem preparadas para piano como recurso de registro e divulgação. Essa formatação é uma maneira eficaz de difundir repertório. A partitura é capaz de representar as intenções harmônicas e fraseológicas dos compositores, assim como, suas intenções de caráter, articulação e dinâmica. 

O trabalho de revisão e reedição deste material 106 após o lançamento dos primeiros originais, tornou-se um desafio devido a grande responsabilidade. Alguns códigos utilizados por compositores e copistas naquele tempo não são convencionais nos dias de hoje, principalmente no que tange as indicações de forma e suas repetições. Houve um intenso e detalhado cuidado de revisão dos textos musicais da época, pois em algumas ocasiões foi possível detectar equívocos na cópia original, o que nos direcionou a uma apurada análise dos condicionamentos composicionais dos autores destas obras. As partituras foram reeditadas por uma pequena equipe coordenada pelo musicólogo Tiago Portella Otto. O trabalho de revisão das partituras, assim como o processo de organização das informações foi realizado pela professora Marília Giller juntamente ao pianista Fábio Cardoso. O objetivo das revisões foi detectar as imperfeições ocorridas durante a produção das partituras matrizes. Redobramos a atenção e executamos uma à uma no intuito de apresentar aos pesquisadores uma publicação fiel e que possa de fato revelar a sonoridade e linguagem tão particulares dos compositores curitibanos. 

A partir da reedição das partituras d'Olho da Rua em 2013 (aguardando para serem publicadas e gravadas) esperamos contribuir para a pesquisa histórica da música produzida em Curitiba pelos compositores nascidos durante o século XIX. De fato, a sonoridade das composições despertam sentimentos profundos que outrora foram semeados por nossos artistas do Paraná.



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