sábado, 1 de outubro de 2011

José da Cruz e a música popular em Curitiba



* Apenas José da Cruz (flauta transversal), e Benedito Ogg (violino) foram identificados nesta foto.
Fonte: acervo família Cruz

A (re)descoberta da obra do músico José da Cruz ocorreu durante o segundo semestre de 2008, em uma usina de reciclagem. Antes que grande parte da produção do compositor pudesse ser triturada pelas máquinas desta indústria, a sensibilidade e atenção de um agente salvou cerca de 600 manuscritos produzidos em Curitiba nas décadas de [19]10, 20 30 e 40. Composições, orquestrações, correspondências, cadernos e dedicatórias do músico paranaense que se auto-intitulava “O Sabiá”, estavam livres de mais uma desaparição documental. O lote de documentos encontrado na usina chegou em nossas mãos a partir do contato estabelecido com a pesquisadora e musicista Lilian Nakahodo, dando início a um trabalho de resgate da memória de José da Cruz. Vinte meses após este achado, a família do músico foi localizada e o seu acervo, que encontrava-se disperso, foi novamente reunido depois de 59 anos. No total, são 2.500 manuscritos, instrumentos musicais, fotografias e documentos pessoais, que registram peculiaridades, de imagem e som, da cena musical na capital paranaense.

As primeiras informações coletadas acerca da vida e obra deste compositor e maestro curitibano, estavam em uma carta datilografada, encontrada em meio ao montante de manuscritos na usina de reciclagem. Este documento foi a principal fonte de consulta biográfica durante as primeiras verificações. Inúmeros contatos com pesquisadores da música brasileira foram estabelecidos, em vão, à procura de maiores informações acerca da sua vida e obra.

Nascido em Curitiba em 19 de maio de 1897, o compositor, arranjador e instrumentista José da Cruz é filho legítimo de Francisco Manoel da Cruz e Maria Durski da Cruz. Ainda criança, foi radicado na capital paranaense sendo logo cedo iniciado nos estudos musicais, tendo como primeiro professor seu avô Jerônimo Durski , músico e pioneiro imigrante em terras brasileiras. Desde a infância, José da Cruz demonstrou talento musical. Aos cinco anos de idade, com uma flauta de bambu construída com as próprias mãos, iniciou sua jornada musical, que o levaria posteriormente a dedicar-se inteiramente ao ofício musical.

“Aos 15 anos já fazia algumas composições. Algum tempo mais tarde, ensinava e tocava vários instrumentos, sendo a flauta o seu preferido. Formava e dirigia conjuntos musicais, conforme estilo da época, sendo seu primeiro conjunto o "Quinteto Carioca". Em 1.917 compôs a valsa lenta paranaense Saudosas Recordações. Indo residir em Paranaguá, no ano de 1.923, ao regressar à Curitiba em 1.928, compôs as valsas Saudades de Paranaguá e Despedida Sentimental". (KINCHESKI, 1950:1)

Sua trajetória profissional se estabeleceu entre a vocação para lecionar e a dedicação aos diversos grupos musicais que fundou. Seu conjunto de partituras é dedicada em grande parte à orquestrações de suas 54 composições, desenvolvidas principalmente para formação jazz band durante a primeira metade do século XX. Cruz foi entusiasta do movimento paranista , buscando utilizar em algumas das suas composições, inspirações simbólicas representativas do Paraná. Orquestrou também para formações sinfônicas e militares.

Sua residência, localizada na Rua Doutor Pedrosa, era o ponto de encontro de músicos das mais variadas formações e origens. Em seu endereço ocorriam rodas de choro, saraus e ensaios de grupos regidos por ele. A sala de sua casa vivia repletas de partituras secando no chão, uma ao lado da outra, o que impedindo a circulação dos seus 5 filhos, durante este processo. Lá também lecionava música para estudantes dos diversos tipos de instrumentos de sopro, sendo a flauta transversal, o saxofone alto e o saxofone suas especialidades. Graças aos documentos encontrados na usina foi possível identificar alguns dos grupos criados e dirigidos por ele. Além do Quinteto Carioca, organizou os seguintes conjuntos: Orquestra Regional Paranaense, José da Cruz e seu Conjunto Typico Regional, Ideal Jazz Band, Íris Jazz Band, Conjunto Caramurú e José da Cruz e seus Solistas, este último com sede na rua Ermelino de Leão, 28 , localizada na região central de Curitiba.

José da Cruz produzia de próprio punho todos os cadernos de partituras utilizados pelos músicos que compunham os seus conjuntos. Sua facilidade em desenvolver arranjos e sobretudo sua agilidade caligráfica tornou este acervo um dos mais volumosos já encontrados em Curitiba. A produção do maestro caminhou em busca de uma linguagem regional e autêntica, perceptível através dos arranjos que escreveu para as diversas formações, sejam elas populares, camerísticas, militares ou sinfônicas. Cruz utilizou amplamente seu repertório autoral para animar bailes, realizar concertos e apresentar-se nos programas de rádio com os diversos grupos que fundou e dirigiu, elaborando arranjos para as diversas categorias de instrumentos. Os gêneros utilizados em sua produção (valsa, choro, marcha, fox-trot, maxixe, samba, lundú, ranchera, cateretê, polca, sinfonia e schottischs) são comumente utilizados por outros compositores de sua época.

Além de Curitiba, José da Cruz estabeleceu residência em Paranaguá entre 1923 e 1928 e Apucarana entre 1948 e 1951 onde, em 1949, abriu uma escola de música, a Escola de Música José Cruz. Retornou para Curitiba em setembro de 1950, com a saúde muito debilitada, sofrendo principalmente de problemas respiratórios. Faleceu em 30 de novembro de 1952, aos 55 anos, deixando sua esposa e 5 filhos.

Um dos poucos estudos sobre o assunto é o artigo de Roderjan (1969), no qual a autora ressalta que a década de 1930 tem como marca o cultivo de tudo aquilo que faz referência ao Paraná, através do paranismo de Romário Martins, que valorizava as lendas indígenas. Essas serviam de inspiração para vários artistas, como Romualdo Suriani, que escreveu um poema sinfônico sobre a terra paranaense chamado Gôio-Covó, nome que os índios caingangues davam ao Rio Iguaçu. Entre 1927 e 1930, o Movimento Paranista vivenciou o seu auge, atingindo as artes plásticas e musicais, passando por um período em que seus ideais estavam organizados e institucionalizados em forma de práticas culturais. O melhor exemplo disso é a revista Illustração Paranaense, criada em 1927, pelo fotógrafo e jornalista João Baptista Groff. O periódico refletia os temas e o ideário em voga naquele momento, tinha uma ótima qualidade gráfica e editorial e contava com a colaboração de artistas e intelectuais. Até mesmo as capas da revista, apresentavam temas com forte referência nas lendas indígenas dos escritos de Romário Martins. Tendo circulado com grande freqüência até 1930, a revista interrompeu sua publicação em decorrência da crise gerada pela Revolução de 1930. (SALTURI, 2007:14/15)

Dos cinco filhos que José da Cruz teve, apenas Francisco Cruz exerceu a prática da música instrumental, através do violino. No acervo resguardado pela família Cruz, foi encontrada a flauta transversal pertencente ao maestro e o violino que pertenceu a Francisco, uma réplica de um Stradivarious 1753. Sua filha caçula, Odah Terezinha Cruz, também seguiu carreira musical, como cantora. Estreou na rádio PRB-2 em 1943 e na rádio Guayracá em 1947, onde interpretava sucessos de época e principalmente composições de seu pai. Seu nome aparece grafado em diversos manuscritos. Juntos compuseram a música Antisardina e o fox-trot Sabiá. Após o falecimento de seu pai, Odah afastou-se dos palcos.




IDEAL JAZZ BAND (Curitiba/1927)

da esquerda para direita – em pé:

1. José da Cruz (saxofone), 2. não identificado (trumpete), 3. Álvaro Lantman (violino), 4. Joaquim (trombone), 5. Arnaldo (saxofone), 6. não identificado (souzafone), 7. não identificado (banjo).

sentados:

8. não identificado (banjo), 9. Sadi (bateria), 10. Emílio Amodio (banjo)

Fonte: acervo família Cruz

O encontro com a família Cruz e a reunião do acervo do músico deu origem ao projeto “Dos Regionais às Jazz Bands”, que levou aos salões do Museu Paranaense um conjunto de partituras, instrumentos musicais e imagens de diversos conjuntos atuantes em Curitiba na primeira metade do século XX, com especial destaque ao acervo de José da Cruz. Suas composições foram interpretadas ao vivo pela Regional Jazz Band que contou com a participação de Odah Terezinha Cruz, cantando novamente músicas de seu pai, após 59 anos de afastamento artístico. O mesmo projeto foi levado a outros palcos curitibano, divulgando a popularizando composições até pouco tempo inacessíveis.

2 comentários:

  1. Opa! O violinista da primeira foto é Benedito Ogg.

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  2. Olá. Obrigado pela lembrança, faremos a modificação na legenda. A tempo!! Temos encontrado o Benedito em outras fotografias também. Vc tem maiores informações sobre ele? Um abraço.

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